domingo, 31 de maio de 2009

Poeta Castrado, Não !


  Poeta Castrado, Não!

  Serei tudo o que disserem
  por inveja ou negação:
  cabeçudo dromedário
  fogueira de exibição
  teorema corolário
  poema de mão em mão
  lãzudo publicitário
  malabarista cabrão.
  Serei tudo o que disserem:
  Poeta castrado não!

  Os que entendem como eu
  as linhas com que me escrevo
  reconhecem o que é meu
  em tudo quanto lhes devo:
  ternura como já disse
  sempre que faço um poema;
  saudade que se partisse
  me alagaria de pena;
  e também uma alegria
  uma coragem serena
  em renegar a poesia
  quando ela nos envenena.

  Os que entendem como eu
  a força que tem um verso
  reconhecem o que é seu
  quando lhes mostro o reverso:

  Da fome já não se fala
  é tão vulgar que nos cansa
  mas que dizer de uma bala
  num esqueleto de criança?

  Do frio não reza a história
  a morte é branda e letal
  mas que dizer da memória
  de uma bomba de napalm?

  E o resto que pode ser
  o poema dia a dia?
 Um bisturi a crescer
  nas coxas de uma judia;
  um filho que vai nascer
  parido por asfixia?!
 Ah não me venham dizer
  que é fonética a poesia!

  Serei tudo o que disserem
  por temor ou negação:
  Demagogo mau profeta
  falso médico ladrão
  prostituta proxeneta
  espoleta televisão.
  Serei tudo o que disserem:
  Poeta castrado não!

  José Carlos Ary dos Santos

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